terça-feira, 28 de abril de 2015
Era uma vez o gatilho mais rápido do soul
terça-feira, 31 de março de 2015
Espírito turista
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segunda-feira, 3 de novembro de 2014
O livro "A História da Caça de Baleias no Brasil: De peixe real à iguaria japonesa" veio à tona
Como resgatar uma história esquecida em um país com tão pouca memória, seja histórica ou recente, como o Brasil? Foi este o desafio que os historiadores William Edmundson e Ian Hart enfrentaram ao pesquisar uma atividade que, apesar de abranger mais de 380 anos da história brasileira, permanece negligenciada nas escolas e distante da mente do cidadão comum. Tal fato é nada menos do que surpreendente quando constatamos que esta atividade – a caça às baleias – chegou a ser um poderoso lobby do governo, estreitando as relações Brasil-Japão, e uma importante atração turística, responsável até mesmo por fomentar a criação de linhas aéreas.
No entanto, isso é apenas uma ínfima amostra das preciosidades que o livro “A história da caça de baleias no Brasil: De peixe real a iguaria japonesa” traz à tona, vindas das profundezas de um vasto mar de arquivos, bibliotecas, museus, revistas antigas e conversas com especialistas de renome, fruto de uma pesquisa sem igual feita por Edmundson e Hart no Brasil, Reino Unido, Noruega e Estados Unidos. Com linguagem acessível e um rico acervo de raras imagens, eles nos guiam através do surgimento das primeiras estações baleeiras na costa, denominadas “armações” durante o Brasil colonial, e da modernização da atividade no início do século XX, quando imigrantes britânicos e holandeses, com uma pequena ajuda de mãos norueguesas, substituíram os barcos a remo e vela com arpões manuais por navios a motor com canhões que disparavam arpões explosivos.
O uso de tais técnicas atingiu seu auge com a chegada dos japoneses nas estações localizadas nos litorais da Paraíba e Rio de Janeiro, que trouxeram também inusitadas estratégias de marketing pelo consumo de carne de baleia e o inacreditável caso do arpoador que, até se aposentar, matou 30.000 baleias e errou apenas um tiro ao longo da sua carreira. Destas histórias ora prosaicas e às vezes bizarras da exploração das baleias, os autores passam à mudança de consciência da população brasileira com relação a estes animais, num momento quando personagens aparentemente tão díspares como um adolescente gaúcho e um Almirante Vice-Chefe das Forças Armadas uniram-se para fortalecer o movimento “Salvem as baleias!” no país.
É neste movimento que repousa o germe de projetos como o Baleia Franca, Baleia Jubarte e Monitoramento de Baleias por Satélite, que se dedicam à pesquisa e conservação dessas espécies nos dias atuais e dos quais boa parte da informação sobre a biologia destas disponível no livro se origina. Em um ano onde o Brasil comemora a saída da baleia-jubarte – um dos alvos favoritos dos baleeiros no passado – da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, a prodigiosa obra de Edmundson e Hart serve como uma prova dos avanços pela conservação da biodiversidade que somos capazes de fazer quando aliamos o conhecimento científico à educação do público. Quem sabe, ao ficarmos alertas quanto aos erros do passado, possamos estar mais inspirados e esperançosos para enfrentar os desafios ambientais ainda maiores da atualidade e os que, por ventura ou não, o futuro traga."
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sexta-feira, 13 de junho de 2014
As formigas devem ser extintas
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Da Alemanha para Torres
A IMIGRAÇÃO ALEMÃ
O território do atual município de Torres foi o primeiro a ser cogitado para a colonização alemã do Rio Grande do Sul. Entretanto, só veio a ser aproveitado em terceiro lugar, depois de implantados os focos imigrantistas do vale do rio dos Sinos e da zona das Missões, respectivamente em julho de 1824 e em janeiro de 1825.
O plano do governador José Feliciano Fernandes Pinheiro começou a ser ativado tão logo penetrou na Província para assumir suas altas funções; em viagem a cavalo, a partir de Santa Catarina, atravessou o rio Mampituba em fevereiro de 1824 e já tomou as primeiras providências. Naquele distante verão, o futuro Visconde de São Leopoldo parece haver-se apaixonado pela exuberante natureza de Torres. Encontrou ali uma diligente guarnição militar, formada por uma Milícia Sertaneja, a que conferiu o título de "Presídio", e uma pequena comunidade de descendentes de açorianos; havia ainda uns poucos índios guaranis cristãos, capturados quatro anos antes na guerra contra os castelhanos, e aí aquerenciados. O núcleo contava com uma igreja em construção adiantada (seria inaugurada em 24 de outubro daquele ano) e era atendido por um sacerdote espanhol, o Frei Joaquim Serrano, que era coadjutor da paróquia de Conceição do Arroio (Osório) e capelão de Torres. Os quartéis e umas poucas residências completavam a minúscula localidade implantada na encosta do morro, à beira do mar.
Com as informações colhidas junto ao Cel. Francisco de Paula Soares de Gusmão, comandante das Torres, e ao antigo morador, Alferes Manoel Ferreira Porto, ex-comandante reformado, o presidente da província imaginou estar ali o local indicado para seu projeto de colonização germânica. Mandou logo abrir duas estradas ao longo dos rios Mampituba e Três Forquilhas e levantar uma planta das terras destinadas à colônia. Tinha em mente aproveitar o solo fértil do sopé da Serra, em sua maior parte ainda de propriedades da Coroa. A região poderiar proporcionar uma boa diversificação econômica, já que os campos litorâneos (Estância do Meio, Rincão da Cavalhada, Cerca de Pregos, Curral Falso, etc.) estavam dedicados à criação, ao passo que as terras de matas atrás da lagoa da Itapeva prometiam abundância agrícola. Certamente imaginou a possibilidade das comunicações através do rosário de lagoas do litoral até Osório, e daí até à Capital, por terra, ideia já conhecida dos administradores mais de século antes. Além do mais, a economia colonial seria integrada com aquela resultante da pecuária de Cima da Serra, pelos caminhos a serem abertos.
O governo de Fernandes Pinheiro foi curto, de apenas dois anos, porém em nenhum momento abandonou seu plano torrense. Mesmo quando, por motivos práticos, decidiu-se a começar a colonização alemã em São Leopoldo e, por razões estratégicas, a prossegui-la nas Missões – continuou sempre a figurar na correspondência oficial a sua sonhada Colônia Alemã das Torres. Ainda no momento de deixar o governo da Província, na quase véspera de sua saída, em janeiro de 1826, o Visconde fez expressas recomendações, determinando separar os mais recentes imigrantes chegados à São Leopoldo para serem remetidos à Torres.
Houve protelações da administração subsequente, mas Fernandes Pinheiro continuou insistindo, agora como Ministro do Império. Em maio, enviou do Rio ao novo governador instruções enérgicas sobre o assunto. O presidente da Província fez uma visita à São Leopoldo em julho e mandou fazer listas dos candidatos à nova colônia. Foram contempladas as famílias e os solteiros que ainda não tinham recebido lotes de terra ("datas") ou que não tinham gostado dos que lhes haviam sido concedidos do outro lado do rio dos Sinos.
Só em novembro de 1826 é que os colonos chegaram à Torres. Viajaram em cinco barcos, descendo o rio dos Sinos e o Guaíba, depois seguindo pela lagoa dos Patos e subindo o rio Capivari; daí continuaram em carretas pelo campo e pela praia. O Cel. Soares de Gusmão (entrementes nomeado Inspetor da Colônia) recebeu-os em Torres. Eram 422 pessoas. De acordo com os planos, os católicos foram colocados perto da estrada do rio Mampituba, de modo a ficarem mais próximos da sede do Presídio para terem assistência religiosa, médica e farmacêutica; quanto aos protestantes, receberam terras nas margens do rio Três Forquilhas, onde também foram localizados o pastor evangélico Carlos Leopoldo Voges, chegado logo depois, e um médico, o Dr. Jorge Zinkgraf.
Tais foram os difíceis começos daquela gente, cujos descendentes loiros e de olhos azuis, topamos ao longo da BR101 quando passamos de Terra da Areia em demanda à cidade balneária de Torres.
Ruy Ruben Ruschel
Extraído do livro de "São Domingos das Torres" – publicado em 1984
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sexta-feira, 4 de abril de 2014
Rascunho também é legal #10
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terça-feira, 11 de março de 2014
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
O porto que não saiu [Ainda bem!]
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terça-feira, 30 de julho de 2013
quinta-feira, 11 de julho de 2013
segunda-feira, 13 de maio de 2013
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
terça-feira, 10 de abril de 2012
terça-feira, 1 de novembro de 2011
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Terezinha Morango
Terezinha Oliveira Baraldo não tinha paradeiro. Aos 16 anos, ficava zanzando pela Praça da Alfândega, em volta da Confeitaria Matheus. Para casa, não podia ir porque a mãe a acorrentava. O pai, pianista da boate Tropical, nem queria saber da menina. Um dia, um tal de Virgílio jogou um xaveco: "Quer ganhar Cr$ 300 no mole?"
O bar Novidades ficava no comecinho da Andrade Neves. De cara, Terezinha notou os desenhos de sem-vergonhice nas paredes. No camarim improvisado, estavam outras duas moças, Tânia e Vera, que ela conhecia da praça. Chegou o Virgílio: "Agora vocês vão, uma de cada vez, dançar tirando a roupa, na frente do balcão. Primeiro, tu!".
Ela foi. Começou a tocar "Boneca de Carne" e um foco de luz iluminou Terezinha. Uns 50 homens no escuro olhando para ela. Começou uma dança lenta, fazendo poses, despindo peça por peça, apesar do frio úmido. E foi gostando. Não se perturbou nem quando o tal Vírgílio acertou uma bofetada numa das garçonetes, sabe-se lá por quê. Terezinha cumpriu o ritual até o final. Quando a música terminou, ela estava nua, sob aplausos do público, mas só conseguia tossir, resquícios de uma tuberculose recém-curada.
Logo depois, um rapaz falante começou a puxar assunto. Ela se agradou do moço e foi falando de si. Que tinha 16 anos, que andou doente, que a mãe a considerava doidivanas, que o pai era isso e aquilo. Ainda por cima, se deixou fotografar fazendo beicinho. No dia seguinte, não houve espetáculo. Mesmo com a polícia fazendo corpo mole, dois oficiais de Justiça fecharam a casa. A Última Hora saía com uma matéria denunciando o bar Novidades por exploração de menores e acusando os policiais de conivência. No canto da página, uma foto de Terezinha e um texto com alguns adjetivos: menor de idade, tuberculosa e débil mental.
Em vez de Tereza Oliveira Baraldo, está escrito o nome que ela inventou para o rapaz, mistura de miss com presidente:
Terezinha Morango Kubitschek Oliveira.
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sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Codinome Leopardos no Templo

sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Só no sapatinho...
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Quero que vá tudo pra puta que o pariu
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Uma canção que assustava alguém apenas com a leitura de seu título, o que não poderia provocar quando todos começassem a ouvir o refrão com aquelas mesmas palavras? “Para a época, aquilo foi realmente uma coisa muito forte, agressiva. É como se hoje fosse lançada uma música com o refrão “quero que vá tudo pra puta que o pariu”, compara a cantora Wanderléa. Essa comparação é pertinente, mas, talvez, depois da liberação dos costumes e de tantas outras músicas com o tema da libertinagem, um puta que pariu hoje causasse menos impacto do que o provocado pela canção de Roberto Carlos em 1965. “Aquilo assustou muita gente naquele ambiente de forte religiosidade. Lembro que havia um comentário geral das pessoas criticando Roberto: “esse cara não tem o direito de dizer isso”, afirma o cantor Wando. De fato, Quero que vá tudo pro inferno atingiu em cheio a sensibilidade de um país sufocado pela repressão moral, política e social. Enfim, uma sociedade reprimida que, de repente, foi tomada por uma canção com um grito de guerra arrebatador. A canção provocou e perturbou os setores conservadores, ou seja, a maioria da sociedade brasileira. Na época, muitas emissoras de rádio se recusaram a tocar a música por determinação do proprietário, numa censura interna motivada por razões religiosas.
Quero que vá tudo pro inferno foi uma febre, uma verdadeira coqueluche, como se dizia na época. E ninguém podia evitar a música de Roberto Carlos, que alcançava mesmo quem não a procurasse, mesmo quem não quisesse, mesmo quem não gostasse. A letra não seguia a temperatura ambiente. Em pleno verão, sob um sol de 40 graus à sombra, toda a juventude brasileira, suando e resfolegando, cantava freneticamente o refrão “Quero que você me aqueça nesse inverno/ e que tudo o mais vá pro inferno...”. Foi talvez a primeira vez que alguém ousou praguejar através de uma canção popular no Brasil. Nas ruas das principais capitais do país, muitos transeuntes paravam diante das lojas de disco para escutá-la.
O sucesso da música foi tão grande e impactante que muitos ainda se lembram onde estavam e o que sentiram ao ouvi-la pela primeira vez. É o caso, por exemplo, da cantora Fafá de Belém, na época uma menina de dez anos de idade. “Nunca me esqueço. Eu estava dentro da Rural Willys de papai, em frente à sorveteria Santa Marta, em Belém, tomando um sorvete, quando começou a tocar Quero que vá tudo pro inferno. Falei na hora: “Humm, como esse cara é moderno”. Outro que também se lembra dessa primeira vez em que escutou a canção é o cantor e compositor pernambucano Alceu Valença, na época um jovem estudante de dezenove anos. “Eu me lembro que estava numa festa, num bairro em Recife, o carro parado e eu tomando alguma coisa, já meio bêbado. E de repente começou a tocar Quero que vá tudo pro inferno. Eu achei aquilo uma coisa muito forte e bonita.”
O futuro cantor e compositor Djavan tinha dezesseis anos quando ouviu a música de Roberto Carlos pela primeira vez numa rádio de Alagoas. “Foi um impacto, fiquei muito empolgado. Quero que vá tudo pro inferno foi uma das primeiras músicas que aprendi a tocar no violão.” Quem também estava descobrindo o instrumento nessa época foi o então adolescente cearense Raimundo Fagner. “Me lembro que logo depois de ouvir essa música eu corri para o violão. E em pouco tempo estava tocando porque era um tema fácil e que todos cantavam juntos, em coro. A música mexia em muitas feridas e com grande alegria.” Na época, o cantor e compositor Zé Ramalho tinha quinze anos e morava em Campina Grande, cidade do interior da Paraíba, que também não ficou imune ao sucesso de Quero que vá tudo pro inferno. “A música tocava alucinadamente na rádio e provocava uma emoção coletiva, pois todos paravam tudo para ouvir. Adorava aqueles arpejos que o cara faz na guitarra, simples, mas uma aula de base, e também o jeito agressivo de Roberto cantar e, claro, a mensagem de rebeldia.” Para Zé Ramalho, a música se confundia com o cenário de repressão pós-golpe militar que na época ele ainda não compreendia direito. “Eu me lembro de ver a polícia correndo atrás de estudantes na rua, carros revirados, ônibus incendiados e Quero que vá tudo pro inferno tocando no rádio. Era um cenário louco, um apocalipse danado. E eu ali, inocente, puro e besta, como diz Raul Seixas, vendo estas coisas acontecerem e cheio de sonhos na cabeça.”
Assim como repercutiu no Nordeste, terra do baião de Luiz Gonzaga, a música de Roberto Carlos alcançou também os morros cariocas, berço de sambistas como Ismael Silva e Cartola. O cantor e compositor Luiz Melodia é uma testemunha disso. Ele cresceu entre o morro de São Carlos e o largo do Estácio, uma área mitológica do Rio de Janeiro, e foi ali que ouviu Quero que vá tudo pro inferno pela primeira vez. “Foi uma febre no morro. A gente ouvia a música o dia inteiro.”
Nem Nordeste nem morros cariocas, na época a cantora Nana Caymmi estava morando em Caracas, para onde se mudara depois de se casar com um venezuelano. E mesmo ali ela foi alcançada pelo sucesso da música de Roberto Carlos. “Quero que vá tudo pro inferno foi um estouro na Venezuela. Pra mim foi uma grata surpresa porque até então não conhecia nada de Roberto Carlos. E eu cantava muito essa música para minhas filhas Stelinha e Denise. Irreverente como sou, adoro aquela letra.”
Sem compartilhar do mesmo entusiasmo de Nana, a escritora Edinha Diniz também foi alcançada pelo sucesso da música, mesmo estando em alto-mar. Em fevereiro de 1966, embarcou no porto do Rio de Janeiro com destino a Nápoles em um navio italiano da linha Federico C que fazia a rota Buenos Aires-Roma. “Durante a viagem, Quero que vá tudo pro inferno ocupava inteiramente o ar. Era uma febre. Lembro que nas máquinas de jukebox do navio havia muitas outras coisas para ouvir, mas o que se tocava mesmo era a música de Roberto Carlos. Os jovens argentinos a bordo eram fanáticos pela canção e a cantavam sem parar. De todas as formas, aquela minha viagem foi ao som de Quero que vá tudo pro inferno.”
Como explicar um sucesso tão grande e fulminante? O que essa canção trazia de tão especial? Na época, educadores, sociólogos e psicólogos teorizaram sobre o tema e muitos deles amarraram interpretações para além de um mero drama amoroso. O refrão conteria um grito rebelde contra todos os males existenciais e urbanos: repressão familiar, social e política, baixos salários etc. “Quero que vá tudo pro inferno deu voz a um estado de espírito geral da atualidade brasileira”, afirmou o poeta Augusto de Campos. “Na época, Décio Pignatari era meu professor de Teoria da Comunicação e ele fazia interpretações semióticas da letra dessa música, metáforas com a ditadura”, lembra Nelson Motta. Até mesmo Alziro Zarur, o carismático líder da Legião da Boa Vontade, se manifestou sobre o fenômeno. “Compreendo perfeitamente o drama da juventude rebelada. É um fenômeno da nossa época. São os jovens inconformados em todo o mundo com a política dos velhos que desgovernam as nações. No setor musical Roberto Carlos encarna esse protesto que pode ser sintetizado em Quero que vá tudo pro inferno.”
A repercussão da música chegou até as áreas rurais do Norte e Nordeste do país, onde Roberto Carlos passou a ser figura de lenda sertaneja. Nas feiras nordestinas, os cantadores faziam variações sobre a letra e a melodia. A literatura de cordel também explorou o tema em histórias como A briga que Satanás teve com Roberto Carlos. A vendagem foi grande e logo depois surgiu outro livreto com a continuação da briga do Tinhoso com o ídolo da juventude. É curioso observar que naquele momento cantores da MPB como Sérgio Ricardo e Geraldo Vandré estavam recolhendo temas folclóricos para utilizar em seus trabalhos musicais.
Já os artistas do folclore nordestino faziam um caminho inverso: pegavam um tema urbano de Roberto Carlos e o folclorizavam. Não será de todo impossível que, daqui a uma centena de anos, algum pesquisador desavisado recolha numa feira do Nordeste a melodia de Quero que vá tudo pro inferno como um tema do folclore.
Por tudo isso, esta é uma das mais importantes canções produzidas no Brasil. Nesse sentido, ela bem poderia ser o outro lado de um disco com Chega de saudade, de Tom e Vinícius, na versão bossa nova de João Gilberto. As duas canções ganharam projeção histórica e são marcos referenciais de movimentos musicais. E ambas são ainda mais emblemáticas porque, enquanto a gravação de João Gilberto resultou na canção de maior impacto estético da história da MPB, a de Roberto Carlos foi certamente a de maior impacto social.
Pode-se dizer que, naquele ano de 1965, o rock’n’roll ganhou três grandes temas: Help!, dos Beatles, Satisfaction, dos Rolling Stones e... Quero que vá tudo pro inferno, de Roberto Carlos – que só não alcançou a mesma visibilidade das outras duas porque foi composta e gravada em português. Não se enganem: qualquer banda de rock da época teria incendiado o mundo com a gravação de I want that everything goes to hell. Ela é tão rock’n’roll quanto Help! ou Satisfaction.
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terça-feira, 31 de agosto de 2010
Candinha? Quem é Candinha?
Candinha, na real, nunca existiu!... O escritor e jornalista Joaquim Ferreira dos Santos no livro "Feliz 1958: o ano que não devia terminar", publicado em 1998.

Nãããooo diiigaaa?!!! Mas que fofoca!
"Maysa apaixonou-se decididamente pelo ator Milton Moraes. Ele, idem. Amor tão impetuoso mas que já acabou com briga."
"Vi o Cyll Farney e a Neide Aparecida, bem pertinho da TV Tupi, conversando carinhosamente dentro de um automóvel. Eram quase 24 horas."
"Norma Bengell e Elizabeth Gasper quando se encontram sorriem, abraçam-se. Mas quando se separam, a 'tesoura' funciona para valer."
"Isaurinha Garcia brigou com Walter Wanderley e em seguida cortou os pulsos. Mas já está bem."
"Tomando muito vinagre, a vedete Alma Bergh. Motivo: emagrecer."
"Juntinhos e felizes, na rua do Ouvidor, encontrei o Domício Costa e a Elen de Lima. Depois eles dizem que não."
É verdade que Fidel e Che já estão descendo a Sierra Maestra para derrubar Batista no réveillon de 59, e que Ferreira Gullar, brigado com os irmãos Campos, inventa um concretismo à beira-mar. Mas, who cares? As notícias que o povão queria ler em 1958 eram as que saíam nos "Mexericos da Candinha", uma coluna de notas lançada naquele ano na Revista do Rádio. Põe a mão no queixo para ele não cair de novo – nãããooo diiigaaa?!!! –, porque lá vem mais fofoca:
"Carlos Gonzaga, aquele cantor que começou há pouco tempo, botou uma máscara tão grande que até parece escafandro."
"Dóris Monteiro continua visitando o Tenente Bandeira quase que diariamente no presídio."
"Dolores Duran decidiu mesmo o desquite. Ela e Macedo Neto estão separados há algum tempo. E alguém, que não é do rádio, já mora no coração dela."
O Brasil se divertia à beira do rádio e, talvez pela última vez naquela década, a Nacional, PRE-8, ainda tinha muito mais charme do que a TV Tupi e a Rio juntas. Candinha, que no rosto desenhado em sua coluna aparecia sempre com ar trêfego, atendia à expectativa dos fãs. Eles queriam saber como os ídolos gastavam seus cachês, como eram na intimidade dos bastidores. E, principalmente – vamos ao que interessa – quem passeava naquelas lambretas deslumbrantes das vedetes.
O cantor Jorge Goulart diz que não existia uma única Candinha:
– Os fuxicos eram coletados com os próprios artistas por uma funcionária da Nacional, Sílvia Donato, que os passava para a revista – historia Goulart, que era membro do Partido Comunista, visitou Moscou naquele ano e, casado há séculos com a cantora Nora Ney, também andou circulando pela Candinha na iminência de um desquite. – A maioria dos focalizados gostava. As notas tinham um lampejo de inteligência que pegava bem para o grupo. Afinal, gente inteligente se picha inteligentemente.
A Revista do Rádio chegava a tiragens de trezentos mil exemplares semanais e sua Candinha era apenas a personagem mais expressiva do incrível assanhamento do país em torno dos programas da Mayrink Veiga, da Tupi e, principalmente, de qualquer coisa que viesse daquele endereço mágico, Praça Mauá 7, 22° andar, o auditório da Nacional do Rio. Caetano Veloso já disse que passou todos os seus sábados de 1958 plugado, das 15h às 18h45, no "Programa César de Alencar". Marisa Monte adoraria ter nascido antes para fazer o mesmo. A Rádio Nacional era a Rede Globo. Com uma diferença: tudo era feito aqui e, como dizia a propaganda antitelevisão que circulou naquele ano, você não precisava parar os afazeres de casa para ficar olhando. [...]
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quinta-feira, 29 de julho de 2010
Nós estamos aqui [...] não para gozar um céu imaginário nem para fantasiar um inferno que devemos evitar
"Chico Xavier ficou deprimido. A culpa tomou conta dele. Os 'espíritos inferiores' atacavam seus amigos e parentes como forma de atingi-lo. Seus adversários eram punidos com mortes trágicas. Todos sofriam por sua causa. Conclusão: ele era má companhia tanto para aliados como para os rivais.
Estava tão só e inconsolável que decidiu pedir a Emmanuel não um conselho, mas uma orientação da própria Maria de Nazaré. Alguns dias se passaram e o guia voltou com uma frase atribuída à mãe de Jesus:
– Isso também passa.
O rapaz se sentiu anestesiado. Escreveu o recado num papel e o colocou na cabeceira da cama. Todas as noites e manhãs ele lia a frase e se consolava. Emmanuel tratou de fazer uma ressalva: a frase valia tanto para os momentos tristes como para os alegres.
O efeito da anestesia passou logo. O pessimismo voltou. Em outubro de 1958, Chico tomou uma decisão surpreendente: iria experimentar o ácido lisérgico. Perguntou a Emmanuel se ele poderia fazer a experiência com amigos de Belo Horizonte. O guia se ofereceu para promover a 'viagem'. À noite, Chico se sentiu fora do corpo, Emmanuel se aproximou dele, colocou uma bebida branca num copo e explicou: aquele era um alcalóide capaz de produzir o mesmo efeito do LSD.
Chico engoliu a bebida, um tanto amarga, e começou a se sentir mal, como se estivesse entrando num pesadelo. Animais monstruosos se aproximavam e cenas assustadoras desfilavam diante de seus olhos. Ele acordou com mal-estar. O sol parecia uma fogueira e o irritava, as pessoas o cercavam, desfiguradas. À noite, Emmanuel reapareceu com a lição psicodélica: o alcalóide refletia seu estado mental.
Chico quis saber como recuperar a tranquilidade e escapar da ressaca. Receita: oração, silêncio e caridade, para colher vibrações positivas.
Chico seguiu à risca as dicas. Começou a visitar doentes pobres, a caçar bons fluidos e, durante cinco dias, trabalhou para se refazer. No sexto dia ele se sentiu melhor. À noite, Emmanuel voltou e propôs repetir a experiência com o mesmo alcalóide. Mesmo desconfiado, o discípulo concordou. O efeito foi surpreendente: alegria profunda. Teve sonhos maravilhosos, visitou uma cidade de cristal, olhou para o céu como se ele fosse de vidro. Até a Fazenda Modelo ficou deslumbrante. Os livros pareciam encadernados por safiras e ametistas, luzes saíam do corpo dos companheiros, das plantas e dos animais. Chico sentiu vontade de abraçar todo mundo. Ficou assim, em êxtase, quatro dias seguidos, em estado de alegria descontrolada, insuportável. Emmanuel apareceu com as explicações:
– Você está vendo seu próprio mundo íntimo fora de você.
Moral da história:
– Nós estamos aqui para cumprir obrigações, não para gozar um céu imaginário nem para fantasiar um inferno que devemos evitar."



















