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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Da Alemanha para Torres

A IMIGRAÇÃO ALEMÃ

O território do atual município de Torres foi o primeiro a ser cogitado para a colonização alemã do Rio Grande do Sul. Entretanto, só veio a ser aproveitado em terceiro lugar, depois de implantados os focos imigrantistas do vale do rio dos Sinos e da zona das Missões, respectivamente em julho de 1824 e em janeiro de 1825.

O plano do governador José Feliciano Fernandes Pinheiro começou a ser ativado tão logo penetrou na Província para assumir suas altas funções; em viagem a cavalo, a partir de Santa Catarina, atravessou o rio Mampituba em fevereiro de 1824 e já tomou as primeiras providências. Naquele distante verão, o futuro Visconde de São Leopoldo parece haver-se apaixonado pela exuberante natureza de Torres. Encontrou ali uma diligente guarnição militar, formada por uma Milícia Sertaneja, a que conferiu o título de "Presídio", e uma pequena comunidade de descendentes de açorianos; havia ainda uns poucos índios guaranis cristãos, capturados quatro anos antes na guerra contra os castelhanos, e aí aquerenciados. O núcleo contava com uma igreja em construção adiantada (seria inaugurada em 24 de outubro daquele ano) e era atendido por um sacerdote espanhol, o Frei Joaquim Serrano, que era coadjutor da paróquia de Conceição do Arroio (Osório) e capelão de Torres. Os quartéis e umas poucas residências completavam a minúscula localidade implantada na encosta do morro, à beira do mar.

Com as informações colhidas junto ao Cel. Francisco de Paula Soares de Gusmão, comandante das Torres, e ao antigo morador, Alferes Manoel Ferreira Porto, ex-comandante reformado, o presidente da província imaginou estar ali o local indicado para seu projeto de colonização germânica. Mandou logo abrir duas estradas ao longo dos rios Mampituba e Três Forquilhas e levantar uma planta das terras destinadas à colônia. Tinha em mente aproveitar o solo fértil do sopé da Serra, em sua maior parte ainda de propriedades da Coroa. A região poderiar proporcionar uma boa diversificação econômica, já que os campos litorâneos (Estância do Meio, Rincão da Cavalhada, Cerca de Pregos, Curral Falso, etc.) estavam dedicados à criação, ao passo que as terras de matas atrás da lagoa da Itapeva prometiam abundância agrícola. Certamente imaginou a possibilidade das comunicações através do rosário de lagoas do litoral até Osório, e daí até à Capital, por terra, ideia já conhecida dos administradores mais de século antes. Além do mais, a economia colonial seria integrada com aquela resultante da pecuária de Cima da Serra, pelos caminhos a serem abertos.

O governo de Fernandes Pinheiro foi curto, de apenas dois anos, porém em nenhum momento abandonou seu plano torrense. Mesmo quando, por motivos práticos, decidiu-se a começar a colonização alemã em São Leopoldo e, por razões estratégicas, a prossegui-la nas Missões – continuou sempre a figurar na correspondência oficial a sua sonhada Colônia Alemã das Torres. Ainda no momento de deixar o governo da Província, na quase véspera de sua saída, em janeiro de 1826, o Visconde fez expressas recomendações, determinando separar os mais recentes imigrantes chegados à São Leopoldo para serem remetidos à Torres.

Houve protelações da administração subsequente, mas Fernandes Pinheiro continuou insistindo, agora como Ministro do Império. Em maio, enviou do Rio ao novo governador instruções enérgicas sobre o assunto. O presidente da Província fez uma visita à São Leopoldo em julho e mandou fazer listas dos candidatos à nova colônia. Foram contempladas as famílias e os solteiros que ainda não tinham recebido lotes de terra ("datas") ou que não tinham gostado dos que lhes haviam sido concedidos do outro lado do rio dos Sinos.

Só em novembro de 1826 é que os colonos chegaram à Torres. Viajaram em cinco barcos, descendo o rio dos Sinos e o Guaíba, depois seguindo pela lagoa dos Patos e subindo o rio Capivari; daí continuaram em carretas pelo campo e pela praia. O Cel. Soares de Gusmão (entrementes nomeado Inspetor da Colônia) recebeu-os em Torres. Eram 422 pessoas. De acordo com os planos, os católicos foram colocados perto da estrada do rio Mampituba, de modo a ficarem mais próximos da sede do Presídio para terem assistência religiosa, médica e farmacêutica; quanto aos protestantes, receberam terras nas margens do rio Três Forquilhas, onde também foram localizados o pastor evangélico Carlos Leopoldo Voges, chegado logo depois, e um médico, o Dr. Jorge Zinkgraf.

Tais foram os difíceis começos daquela gente, cujos descendentes loiros e de olhos azuis, topamos ao longo da BR101 quando passamos de Terra da Areia em demanda à cidade balneária de Torres.

Ruy Ruben Ruschel
Extraído do livro de "São Domingos das Torres" – publicado em 1984

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Um morro chamado...

Chapéu... Mas isso aqui cá pra nós!...  Três Forquilhas-RS

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A defesa do povo


Num passeio à terra dos meus antepassados, diante do dia bonito que estava fazendo, resolvi dar uma caminhada. Estacionei o fusca em frente à uma casa do agricultor Antônio Maurelle. Na volta, me deparei com a porta trancada e a chave na ignição. Seu Antônio providenciou uma faquinha salvadora, que acabei quebrando. Durante a conversa, ele lembrou de uma propaganda em versos do Armazém São José e foi em casa pegar uma coisa, e em seguida voltou com um papel envelhecido. Escreveu uma dedicatória no verso e pediu que entregasse ao meu pai, que depois me falou que havia comprado os versos de um andarilho.

Três Forquilhas ​​​​– "Guananazes", nome original da região, que em tupi-guarani significa "terra dos abacaxis", é um vale belíssimo. O nome em português é o mesmo do rio, que possui bifurcações que lembram forquilhas, e desemboca na Lagoa Itapeva. É o lugar do Rio Grande do Sul onde a Serra do Mar é mais próxima do litoral. E lá, também, existe um morro ​​​​– Chapéu ​​​​– que de cima dá pra ver o mar. Mas a forma dele lembra mais um seio!  

Transcrição do texto
original:

"A defeza do Povo

Grande Armazem S. José/ Que começou pequeninho/ La perto do caite/ Bem a beira do caminho
O Armazem S. José/ Que foi criado do nada/ Para o povo sem fé/ Ja foi causa de risada
Mas com a graça divina/ Ninguém diz mais o que é/ Modesta casa granfina/ Com o nome de S. José
O Armazem S. José/ Não tem orgulho consigo/ Trabalha na boa fé/ Granjeando bons amigos
Conforme eu atendo o pobre/ Atendo o rico tambem/ Tem-se lugar para todos/ Dentro do meu Armazem
O Armazem S. José/ Situado em Guananazes/ Atende na bôa fé/ Vos deseja bôa paz
Angelino Porfirio Marques/ Incançavel lutador/ Quase faliu de desfalque/ Mas vae sendo Vencedor
Faça vossa economia/ A começar do café/ Já raiou a luz do dia/ No armazem S. José
O armazem S. José/ Não vive de concorrença/ Vive como Deus quisé/ Vencendo com paciença
Pois Vencer com paciença/ É o dever do comercio/ Faço grande diferença/ O tal favôr que não peço
No Armazem S. José/ Tem o que é bom e novo/ Gira como Deus quisé/ Sendo defesa do povo
Grande estoque de ferragens/ Todo vindo do estrangeiro/ Grande numero de imagens/ Do meu Santo Padroeiro
Grande estoque de molhado/ Gêneros de se comer/ Grande estoque de Xarque/ Maes gordo não pode ser
Fazendas e miudesas/ Grande estoque de calçados/ Melhores côr de firmeza/ Finos tipos variados
O Armazem S. José/ Que não engana ninguem/ Ele tanto vende a vale/ Como a dinheiro tambem
O povo da Costa de Dentro/ Tres Forquilhas, Maquiné/ Só faz vosso sortimento/ No Armazem São José
O estoque do S. José/ Quasi todo de terceira/ Porém não vende segunda/ Pelo preço de primeira!...
O Armazem S. José/ Vossa casa protetora/ Fornece o pobre turmeiro/ Pelo preço da lavoura
Meu ilustre cavalheiro/ Posso mais lhe declarar/ Que me comprando a dinheiro/ O senhor vae se admirar
Comecei com garrafinhas/ E bicos de mamadeiras/ Dentro de uma casinha/ Quasi que sem comieira/ Porém hoje é maiorsinha/ Mais sortidas as prateleiras
O Armazem S. José/ Emocionalmente/ Se dirige à freguezia/ Muito respeitosamente
Minha ilustre freguesia/ Ilustre operariado/ Quem comprar no S. José/ Ficara abençoado
Se algum dia em minha casa/ Ofendi o meu freguez/ Ele que se chegue a mim/ Peço perdão outra vez
Sertamente que quem luta/ Com sério número de gente/ Sertos dias se apresenta/ Com gesto de descontente
O S. José que foi fraco/ Mas que hoje é mais folgado/ Agradece à freguesia/ Lhes fica muito obrigado
Pois aos meus bons amigos/ Fregueses deste armazem/ Ofereço meu abrigo/ E tudo que nele tem
Minha distinta freguezia/ Podeis me acreditar/ Que trabalho noite e dia/ Pra poder vos ajudar
O S. José vos deseja/ Votos de felicidade/ Peça tudo o que quisé/ Eu farei vossa vontade
Pois no ano Santo/ Ano da economia/ Vendo tudo baratinho/ Pra ajudar a freguesia
Pois meus ilustres fregueses/ Resarei para voceis/ Quem resa um para outro/ Será ajudado seis meis
Eu desejo a freguesia/ Paz e longa salvação/ Após amanhecer o dia/ Visitae o meu balcão."

João Rodrigues da Rosa, Autor
 ​​​​(escrito no início dos anos 50)


Balneário Bom Jesus, 1952 (na época, fazia parte do município de Torres-RS) ​​​​– Angelino Marques se despedia do segundo armazém, o "A Defeza do Povo". Mudava de profissão. De bolicheiro para "caixeiro-viajante", como era chamado o representante comercial. Daí, com a mulher e os filhos pequenos, mudou-se para Torres, e vinte anos depois, para a Capital. O pequeno "grande" detalhe da foto: o retrato do presidente Vargas (não poderia passar despercebido!)