terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Terezinha Morango

Quando um papo sobre futebol se estica muito, lá pelas tantas rolam histórias do passado e, de repente, alguém lembra de um torcedor símbolo. Uma das personagens mais lembradas é Terezinha Morango. O jornalista Rafael Guimaraens fala dela em seu livro "Pôrto Alegre, Agôsto 61" – publicado em 2001:

Terezinha Oliveira Baraldo não tinha paradeiro. Aos 16 anos, ficava zanzando pela Praça da Alfândega, em volta da Confeitaria Matheus. Para casa, não podia ir porque a mãe a acorrentava. O pai, pianista da boate Tropical, nem queria saber da menina. Um dia, um tal de Virgílio jogou um xaveco: "Quer ganhar Cr$ 300 no mole?"

O bar Novidades ficava no comecinho da Andrade Neves. De cara, Terezinha notou os desenhos de sem-vergonhice nas paredes. No camarim improvisado, estavam outras duas moças, Tânia e Vera, que ela conhecia da praça. Chegou o Virgílio: "Agora vocês vão, uma de cada vez, dançar tirando a roupa, na frente do balcão. Primeiro, tu!".

Ela foi. Começou a tocar "Boneca de Carne" e um foco de luz iluminou Terezinha. Uns 50 homens no escuro olhando para ela. Começou uma dança lenta, fazendo poses, despindo peça por peça, apesar do frio úmido. E foi gostando. Não se perturbou nem quando o tal Vírgílio acertou uma bofetada numa das garçonetes, sabe-se lá por quê. Terezinha cumpriu o ritual até o final. Quando a música terminou, ela estava nua, sob aplausos do público, mas só conseguia tossir, resquícios de uma tuberculose recém-curada.

Logo depois, um rapaz falante começou a puxar assunto. Ela se agradou do moço e foi falando de si. Que tinha 16 anos, que andou doente, que a mãe a considerava doidivanas, que o pai era isso e aquilo. Ainda por cima, se deixou fotografar fazendo beicinho. No dia seguinte, não houve espetáculo. Mesmo com a polícia fazendo corpo mole, dois oficiais de Justiça fecharam a casa. A última Hora saía com uma matéria denunciando o bar Novidades por exploração de menores e acusando os policiais de conivência. No canto da página, uma foto de Terezinha e um texto com alguns adjetivos: menor de idade, tuberculosa e débil mental.

Em vez de Tereza Oliveira Baraldo, está escrito o nome que ela inventou para o rapaz, mistura de miss com presidente:

Terezinha Morango Kubitschek Oliveira.