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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Medo não tem fim...

Los que trabajan tienen miedo de perder el trabajo.
Y los que no trabajan tienen miedo de no encontrar nunca trabajo. 
Quien no tiene miedo al hambre, tiene miedo a la comida. 
Los automovilistas tienen miedo a caminar y los peatones tienen miedo de ser atropellados. 
La democracia tiene miedo de recordar y el lenguaje tiene miedo de decir. 
Los civiles tienen miedo a los militares. Los militares tienen miedo a la falta de armas. 
Las armas tienen miedo a la falta de guerra. 
Es el tiempo del miedo. 
Miedo de la mujer a la violencia del hombre y miedo del hombre a la mujer sin miedo. 
Miedo a los ladrones y miedo a la policía. 
Miedo a la puerta sin cerradura. 
Al tiempo sin relojes. 
Al niño sin televisión. 
Miedo a la noche sin pastillas para dormir y a la mañana sin pastillas para despertar. 
Miedo a la soledad y miedo a la multitud. 
Miedo a lo que fue. 
Miedo a lo que será. 
Miedo de morir. 
Miedo de vivir.

El miedo manda
Eduardo Galeano

segunda-feira, 30 de junho de 2014

A popularização do rádio na Copa do Mundo de 1950

Os rádios portáteis nas arquibancadas do estádio Maracanã [montagem]
Imagens do documentário uruguaio "Maracaná" [2014], dirigido por Sebastián Bednarik e Andrés Varela.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

As formigas devem ser extintas

"Código de Posturas do Município de Tôrres"​ – Lei Nº 54, de 4 de março de 1949. Veja mais: Das rinhas de galos 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Da Alemanha para Torres

A IMIGRAÇÃO ALEMÃ

O território do atual município de Torres foi o primeiro a ser cogitado para a colonização alemã do Rio Grande do Sul. Entretanto, só veio a ser aproveitado em terceiro lugar, depois de implantados os focos imigrantistas do vale do rio dos Sinos e da zona das Missões, respectivamente em julho de 1824 e em janeiro de 1825.

O plano do governador José Feliciano Fernandes Pinheiro começou a ser ativado tão logo penetrou na Província para assumir suas altas funções; em viagem a cavalo, a partir de Santa Catarina, atravessou o rio Mampituba em fevereiro de 1824 e já tomou as primeiras providências. Naquele distante verão, o futuro Visconde de São Leopoldo parece haver-se apaixonado pela exuberante natureza de Torres. Encontrou ali uma diligente guarnição militar, formada por uma Milícia Sertaneja, a que conferiu o título de "Presídio", e uma pequena comunidade de descendentes de açorianos; havia ainda uns poucos índios guaranis cristãos, capturados quatro anos antes na guerra contra os castelhanos, e aí aquerenciados. O núcleo contava com uma igreja em construção adiantada (seria inaugurada em 24 de outubro daquele ano) e era atendido por um sacerdote espanhol, o Frei Joaquim Serrano, que era coadjutor da paróquia de Conceição do Arroio (Osório) e capelão de Torres. Os quartéis e umas poucas residências completavam a minúscula localidade implantada na encosta do morro, à beira do mar.

Com as informações colhidas junto ao Cel. Francisco de Paula Soares de Gusmão, comandante das Torres, e ao antigo morador, Alferes Manoel Ferreira Porto, ex-comandante reformado, o presidente da província imaginou estar ali o local indicado para seu projeto de colonização germânica. Mandou logo abrir duas estradas ao longo dos rios Mampituba e Três Forquilhas e levantar uma planta das terras destinadas à colônia. Tinha em mente aproveitar o solo fértil do sopé da Serra, em sua maior parte ainda de propriedades da Coroa. A região poderiar proporcionar uma boa diversificação econômica, já que os campos litorâneos (Estância do Meio, Rincão da Cavalhada, Cerca de Pregos, Curral Falso, etc.) estavam dedicados à criação, ao passo que as terras de matas atrás da lagoa da Itapeva prometiam abundância agrícola. Certamente imaginou a possibilidade das comunicações através do rosário de lagoas do litoral até Osório, e daí até à Capital, por terra, ideia já conhecida dos administradores mais de século antes. Além do mais, a economia colonial seria integrada com aquela resultante da pecuária de Cima da Serra, pelos caminhos a serem abertos.

O governo de Fernandes Pinheiro foi curto, de apenas dois anos, porém em nenhum momento abandonou seu plano torrense. Mesmo quando, por motivos práticos, decidiu-se a começar a colonização alemã em São Leopoldo e, por razões estratégicas, a prossegui-la nas Missões – continuou sempre a figurar na correspondência oficial a sua sonhada Colônia Alemã das Torres. Ainda no momento de deixar o governo da Província, na quase véspera de sua saída, em janeiro de 1826, o Visconde fez expressas recomendações, determinando separar os mais recentes imigrantes chegados à São Leopoldo para serem remetidos à Torres.

Houve protelações da administração subsequente, mas Fernandes Pinheiro continuou insistindo, agora como Ministro do Império. Em maio, enviou do Rio ao novo governador instruções enérgicas sobre o assunto. O presidente da Província fez uma visita à São Leopoldo em julho e mandou fazer listas dos candidatos à nova colônia. Foram contempladas as famílias e os solteiros que ainda não tinham recebido lotes de terra ("datas") ou que não tinham gostado dos que lhes haviam sido concedidos do outro lado do rio dos Sinos.

Só em novembro de 1826 é que os colonos chegaram à Torres. Viajaram em cinco barcos, descendo o rio dos Sinos e o Guaíba, depois seguindo pela lagoa dos Patos e subindo o rio Capivari; daí continuaram em carretas pelo campo e pela praia. O Cel. Soares de Gusmão (entrementes nomeado Inspetor da Colônia) recebeu-os em Torres. Eram 422 pessoas. De acordo com os planos, os católicos foram colocados perto da estrada do rio Mampituba, de modo a ficarem mais próximos da sede do Presídio para terem assistência religiosa, médica e farmacêutica; quanto aos protestantes, receberam terras nas margens do rio Três Forquilhas, onde também foram localizados o pastor evangélico Carlos Leopoldo Voges, chegado logo depois, e um médico, o Dr. Jorge Zinkgraf.

Tais foram os difíceis começos daquela gente, cujos descendentes loiros e de olhos azuis, topamos ao longo da BR101 quando passamos de Terra da Areia em demanda à cidade balneária de Torres.

Ruy Ruben Ruschel
Extraído do livro de "São Domingos das Torres" – publicado em 1984

terça-feira, 11 de março de 2014

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O índio da Praia Grande

"Feita pelo escultor Francisco Gomes de Oliveira em 1952. Uma homenagem aos povos nativos que aqui habitaram há milhares de anos. Na década de 50, a praia de banho (Praia Grande), era a mais frequentada em Torres devido a toda a infraestrutura que já existia com sua rede hoteleria consolidada na parte alta da cidade. Quando o Francisco esculpiu o Curumim, ele estava na altura de seu peito. A rocha onde ele foi esculpido era utilizada como base para os banhistas saltarem e mergulharem no mar. Atualmente com o assoreamento da praia, a escultura encontra-se hoje quase que soterrada. As pessoas que não sabem de sua existência,  passam pelo local e nem a percebem." [Descubra Torres] 

Foto de fevereiro de 2004. Escultura "vandalizada, com tinta e salpicos de cimento". 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O porto que não saiu [Ainda bem!]

Na metade do século XX “Torres” almejava ser uma cidade próspera com intuito de crescimento comercial, tinha ligação através da navegação lacustre pela Lagoa da Itapeva até Osório. A sociedade torrense estava passando por um clima de tornar-se uma cidade portuária, com estrada de ferro, e isso estava atraindo pessoas para a região das Torres. A partir desse momento os torrenses passaram a absorver a ideia de um porto, porém quatro tentativas fracassaram.
Na primeira tentativa o Brasil ainda era um Império. Um dos problemas de comunicação entre o vasto Império eram as suas vias de transporte. Aproveitando os recursos lacustres da região, que formavam um grande canal interligado naturalmente, cogitou-se a possibilidade de ligar essa via a um projeto maior, ou seja, um Porto Marítimo em Torres. O escoamento de produtos na Província de Rio Grande de São Pedro era muito precário. A entrada da Lagoa dos Patos era um acesso muito perigoso, tinham muitos bancos de areia e precisava de muito investimento para fazer um porto. De acordo com Ruschel (apud ELY, 2004) em 1857, o governador da Província tinha duas alternativa, ou fazer uma barra em Rio Grande (RS) ou a construção de um porto em São Domingos das Torres. Os engenheiros ingleses eram a favor, a ponto de orçarem o projeto em três mil e quinhentos contos de reis em 1861. Porém, por influências políticas muito poderosas, o porto passou a ser em Rio Grande (RS). Foi feito um relatório em 1875 para Londres pelos engenheiros, onde constava que um porto em “Torres” era mais viável economicamente, e em Rio Grande (RS) era mais difícil e mais dispendioso e obras mais inseguras. Mesmo assim persistiu a decisão anterior.
Uma segunda tentativa foi durante o governo provisório do marechal Deodoro da Fonseca que agonizava. Um dos motivos dessa crise foi a denúncia de que o então Presidente da República havia se envolvido em corrupção com o engenheiro da construção do porto de Torres, pois superfaturou a obra. Devido à sua renúncia e à Revolução Federalista em 1893, a obra foi abandonada. Se fosse concluída, Torres seria hoje uma cidade bem melhor economicamente, mas por outro lado, estaria desfigurada, pois entre a Guarita e o Morro do Farol teria um grande cais. E também os torrenses seriam “deodorenses”, pois a vila se chamaria “Deodorópolis”, em homenagem a Deodoro. Anos depois, o seu vice-presidente Marechal Floriano Peixoto, assumiu a presidência e mudou o nome de Nossa Senhora do Desterro para Florianópolis (SC) como imposição aos catarinenses.
A imagem abaixo é, até o momento, considerada a primeira fotografia de Torres. Pode-se confirmar a obra inacabada do primeiro presidente da República do Brasil.  
Molhes da Guarita, 1892 – Fonte: Acervo João Barcelos, 2007.

Na terceira tentativa, no ano de 1905, uma missão de capitalistas estadunidenses, que segundo Ruschel (1987, apud ELY, 2004, p.144), era Mr. W. T. Van Brunt, Mr. Schrred e Mr. Everit, além de uma missão política gaúcha vieram a Torres para sondar a possibilidade de reiniciar as obras do porto, iniciadas e interrompidas uma década atrás. Novamente o projeto não foi viabilizado, pois os investidores preferiram Santa Catarina por ter carvão abundante.
E a última esperança foi quando Getúlio Vargas assumiu o governo do Estado do Rio Grande do Sul. Em janeiro de 1928, Getúlio decidiu em sua visita a São Domingos das Torres, que deveria retomar a ideia do porto de Torres. Quase um ano depois, uma equipe técnica vem fazer novos levantamentos para tal possibilidade, mas por questões econômicas e políticas que pairavam contra o Estado, impossibilitou a retomada do porto. Quando Getúlio toma o poder federal, ascende nova esperança, mas novamente não foi possível fazer de Torres uma cidade portuária.
Sob as lentes de Torres – Jaime Batista

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Mediocridade não tem fim...

Revista "Política & Negócios" – 1963 – PN Editora Jornalística
Copiado do blog "No Mundo da Lua News"

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Você mexeria na caça dos leões enquanto eles a comem?

 
Roubar carne fresca de leões famintos – um costume que está com os dias contados, mas a BBC registrou o velho golpe dos "Dorobos", tribo do Quênia (África). A espetacular cena em que três homens surrupiam um pernil de gnu de quinze leões, enquanto eles o devoram, está gravada em "Grasslands, The Roots of Power", sexto episódio de Human Planet (2011). 
URL do vídeo: youtu.be/FV5vmoAuAuA

quarta-feira, 26 de junho de 2013

"O único que tá botando a boca no trombone é o Romário!" Anônimo

 "NA FALA DO POVO @ Consciências à flor da pele. Apenas um exemplo entre milhões. Compartilho por me identificar com o que ele diz." Juarez Fonseca (Copiado do Facebook) 
URL do vídeo: youtu.be/OBkqZNTqI9o 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

segunda-feira, 18 de março de 2013

Quando um autêntico gaúcho usa jeans...

Redesenho de mais um cartum "desaparecido"...  

segunda-feira, 11 de março de 2013

Burka: O último "grito" da moda

Adaptação da famosa pintura "The Scream (or The Cry)", do norueguês Edvard Munch (1863-1944). 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Fuga de Damasco

(...) Com júbilo indefinível abraçou o velho Ananias, pondo-o ao corrente de suas edificações espirituais. O respeitável ancião retribuiu-lhe o carinho com imensa bondade. Dessa vez, o ex-rabino não precisou insular-se numa pensão entre desconhecidos, porque os irmãos do “Caminho” lhe ofereceram franca e amorosa hospitalidade. Diariamente, repetia a emoção confortadora da primeira reunião a que comparecera, antes de recolher-se ao deserto. A pequena assembleia fraternal congregava-se todas as noites, trocando ideias novas sobre os ensinamentos do Cristo, comentando os acontecimentos mundanos à luz do Evangelho, permutando objetivos e conclusões. Saulo foi informado de todas as novidades atinentes à doutrina, experimentando os primeiros efeitos do choque entre os judeus e os amigos do Cristo, a propósito da circuncisão. Seu temperamento apaixonado percebeu a extensão da tarefa que lhe estava reservada. Os fariseus formalistas, da sinagoga, não mais se insurgiam contra as atividades do “Caminho”, desde que o seguidor de Jesus fosse, antes de tudo, fiel observador dos princípios de Moisés. Somente Ananias e alguns poucos perceberam a sutileza dos casuístas que provocavam deliberadamente a confusão em todos os setores, atrasando a marcha vitoriosa da Boa Nova redentora. O ex-doutor da Lei reconheceu que, na sua ausência, o processo de perseguição tomara-se mais perigoso e mais imperceptível, porquanto, às características cruéis, mas francas, do movimento inicial, sucediam as manifestações de hipocrisia farisaica, que, a pretexto de contemporização e benignidade, mergulhariam a personalidade de Jesus e a grandeza de suas lições divinas em criminoso e deliberado olvido. Coerente com as novas disposições do foro íntimo, não pretendia voltar à sinagoga de Damasco, para não parecer um mestre pretensioso a pugnar pela salvação de outrem, antes de cuidar do aperfeiçoamento próprio; mas, diante do que via e coligia com alto senso psicológico, compreendeu que era útil arrostar todas as consequências e demonstrar as disparidades do formalismo farisaico com o Evangelho: o que era a circuncisão e o que era a nova fé. Expondo a Ananias o projeto de fomentar a discussão em torno do assunto, o velhinho generoso estimulou-lhe os propósitos de restabelecer a verdade em seus legítimos fundamentos.

Para esse fim, no segundo sábado de sua permanência na cidade, o vigoroso pregador compareceu à sinagoga. Ninguém reconheceu o rabino de Tarso na sua túnica rafada, na epiderme tostada de sol, no rosto descarnado, no brilho mais vivo dos olhos profundos.
Terminada a leitura e a exposição regulamentares, franqueada a palavra aos sinceros estudiosos da religião, eis que o desconhecido galga a tribuna dos mestres de Israel e, buscando interessar a numerosa assistência, falou primeiramente do caráter sagrado da Lei de Moisés, detendo-se, apaixonado, nas promessas maravilhosas e sábias de Isaías, até que penetrou o estudo dos profetas. Os presentes escutavam-no com profunda atenção. Alguns se esforçavam por identificar aquela voz que lhes não parecia estranha. A pregação vibrante suscitava ilações de grande alcance e beleza. Imensa luz espiritual transbordava dos raptos altiloquentes.
Foi aí que o ex-rabino, conhecendo o poder magnético já exercido sobre o vultoso auditório, começou a falar do Messias Nazareno comparando sua vida, feitos e ensinamentos, com os textos que o anunciavam nas sagradas escrituras.
Quando abordava o problema da circuncisão, eis que a assembleia rompe em furiosa gritaria.
– É ele!... É o traidor!... clamavam os mais audaciosos, depois de identificar o ex-doutor de Jerusalém. – Pedra ao blasfemo!... É o bandido da seita do “Caminho”!...
Os chefes do serviço religioso, por sua vez, reconheceram o antigo companheiro, agora considerado trânsfuga da Lei, a quem se deviam impor castigos rudes e cruéis.
(...)
Após as fases mais agudas do tumulto, o arqui-sinagogo, tomando posição, determinou que o orador descesse da tribuna para responder ao seu interrogatório.
O convertido de Damasco compreendeu de relance toda a calma de que necessitava para sair-se com êxito daquela difícil aventura, e obedeceu de pronto, sem protestar.
– Sois Saulo de Tarso, antigo rabino em Jerusalém? – perguntou a autoridade com ênfase.
– Sim, pela graça do Cristo Jesus! – respondeu em tom firme e resoluto.
– Não vem ao caso referências quaisquer ao carpinteiro de Nazaré! Interessa-nos, tão-só, a vossa prisão imediata, de acordo com as instruções recebidas do Templo – explicou o judeu em atitude solene.
– Minha prisão? – interrogou Saulo admirado.
– Sim.
– Não vos reconheço o direito de efetuá-la – esclareceu o pregador.
Diante daquela atitude enérgica, houve um movimento de admiração geral.
– Por que relutais? O que só vos cumpre é obedecer.
Saulo de Tarso fixou-o com decisão, explicando:
– Nego-me porque, não obstante haver modificado minha concepção religiosa, sou doutor da Lei e, além disso, quanto à situação política, sou cidadão romano e não posso atender a ordens verbais de prisão.
– Mas estais preso em nome do Sinédrio.
– Onde o mandado?
A pergunta imprevista desnorteou a autoridade. Havia mais de dois anos, chegara de Jerusalém o documento oficial, mas ninguém podia prever aquela eventualidade. A ordem fora arquivada cuidadosamente, mas não podia ser exibida de pronto, como exigiam as circunstâncias.
– O pergaminho será apresentado dentro de poucas horas – acrescentou o chefe da sinagoga um tanto indeciso.
E como a justificar-se, acrescentava:
– Desde o escândalo da vossa última pregação em Damasco, temos ordem de Jerusalém para vos prender.
Saulo fixou-o com energia, e, voltando-se para a assembleia, que lhe observava a coragem moral, tomada de pasmo e admiração, disse alto e bom som:
– Varões de Israel, trouxe ao vosso coração o que possuía de melhor, mas rejeitais a verdade trocando-a pelas formalidades exteriores. Não vos condeno. Lastimo-vos, porque também fui assim como vós outros. Entretanto, chegada a minha hora, não recusei o auxílio generoso que o céu me oferecia. Lançais-me acusações, vituperais minhas atuais convicções religiosas; mas, qual de vós estaria disposto a discutir comigo? Onde o sincero lutador do campo espiritual que deseje sondar, em minha companhia, as santas escrituras?
Profundo silêncio seguiu-se ao repto.
– Ninguém? – perguntou o ardoroso artífice da nova fé, com um sorriso de triunfo.
Conheço-vos, porque também palmilhei esses caminhos. Entretanto, convenhamos em que o farisaísmo nos perdeu, atirando nossas esperanças mais sagradas num oceano de hipocrisias. Venerais Moisés na sinagoga; tendes excessivo cuidado com as fórmulas exteriores, mas qual a feição da vossa vida doméstica? Quantas dores ocultais sob a túnica brilhante! Quantas feridas dissimulais com palavras falaciosas! Como eu, devíeis sentir imenso tédio de tantas máscaras ignóbeis! Se fôssemos apontar os feitos criminosos que se praticam à sombra da Lei, não teríamos açoites para castigar os culpados; nem o número exato das maldições indispensáveis à pintura de semelhantes abominações! Padeci de vossas úlceras, envenenei-me também nas vossas trevas e vinha trazer-vos o remédio imprescindível. Recusais-me a cooperação fraterna; entretanto, em vão recalcitrais perante os processos regeneradores, porque somente Jesus poderá salvar-nos! Trouxe-vos o Evangelho, ofereço-vos a porta de redenção para nossas velhas mazelas e inda quereis compensar meus esforços com o cárcere e a maldição? Recuso-me a receber semelhantes valores em troca de minha iniciativa espontânea!... Não podereis prender-me, porque a palavra de Deus não está algemada. Se a rejeitais, outros me compreenderão. Não é justo abandonar-me aos vossos caprichos, quando o serviço, a fazer, me pede dedicação e boa-vontade.
Os próprios diretores da reunião pareciam dominados por forças magnéticas, poderosas e indefiníveis.
O moço tarsense passeou o olhar dominador sobre todos os presentes, revelando a rigidez do seu ânimo poderoso.
– Vosso silêncio fala mais que as palavras – concluiu quase com audácia.
– Jesus não vos permite a prisão do servo humilde e fiel. Que a sua bênção vos ilumine o espírito na verdadeira compreensão das realidades da vida.
Assim dizendo, caminhou resoluto para a porta de saída, enquanto o olhar assombrado da assembleia lhe acompanhava o vulto, até que, a passo firme, desapareceu em uma das ruas estreitas que desembocavam na grande praça.
Como se despertasse, após o audacioso desafio, a reunião degenerou em acaloradas discussões. O arqui-sinagogo, que parecia sumamente impressionado com as declarações do ex-rabino, não ocultava a indecisão, relutando entre as verdades amargas de Saulo e a ordem de prisão imediata. Os companheiros mais enérgicos procuraram levantar-lhe o espírito de autoridade. Era preciso prender o atrevido orador a qualquer preço. Os mais decididos puseram-se à procura imediata do pergaminho de Jerusalém e, logo que o encontraram, resolveram pedir auxílio às autoridades civis, promovendo diligências. Daí a três horas, todas as medidas para a prisão do audacioso pregador estavam assentadas. Os primeiros contingentes foram movimentados às portas da cidade. Em cada uma postou-se pequeno grupo de fariseus, secundados por dois soldados, a fim de burlarem qualquer tentativa de evasão.
Em seguida, iniciaram a devassa em bloco, na residência de todas as pessoas suspeitas de simpatia e relações com os discípulos do Nazareno.
Saulo, por sua vez, afastando-se da sinagoga, procurou avistar-se com Ananias, ansioso da sua palavra amorosa e conselheira.
O sábio velhinho ouviu a narração do acontecido, aprovando-lhe as atitudes.
– Sei que o Mestre – dizia o moço por fim – condenou as contendas e jamais andou entre os discutidores; mas, também, jamais contemporizou com o mal. Estou pronto a reparar meu passado de culpas. Afrontarei as incompreensões de Jerusalém, a fim de patentear minha transformação radical. (...)
O bondoso ancião acompanhava-lhe as palavras com sinais afirmativos. Depois de confortá-lo com a sua aprovação, recomendou-lhe a maior prudência. Seria razoável afastar-se quanto antes dali, do seu tugúrio. Os judeus de Damasco conheciam a parte que tivera na sua cura. Por causa disso, muita vez lhes suportara as injúrias e remoques. Certo, procurá-lo-iam, ali, para prendê-lo. Assim, era de opinião que se recolhesse à casa da consóror lavadeira, onde costumavam orar e estudar o Evangelho. Ela saberia acolhê-lo com bondade.
Saulo atendeu ao conselho sem hesitar.
Daí a três horas, o velho Ananias era procurado e interpelado. Atenta a sua conduta discreta, foi recolhido ao cárcere para ulteriores averiguações.
O fato é que, inquirido pela autoridade religiosa, apenas respondia:
– Saulo deve estar com Jesus.
Nos seus escrúpulos de consciência, o generoso velhinho entendia que, desse modo, não mentia aos homens nem comprometia um amigo fiel. Depois de preso e incomunicável 24 horas, deram-lhe liberdade após receber castigos dolorosos. A aplicação de vinte bastonadas deixara-lhe o rosto e as mãos gravemente feridos. Contudo, logo que se viu livre, esperou a noite e, cautelosamente, encaminhou-se à choupana humilde onde se realizavam as prédicas do “Caminho”. Reencontrando-se com o amigo, expôs-lhe o plano que vinha remediar a situação.
– Quando criança – exclamou Ananias prazeroso – assisti à fuga de um homem sobre os muros de Jerusalém.
E como se recapitulasse os pormenores do fato, na memória cansada, perguntou:
– Saulo, terias medo de fugir num cesto de vime?
– Por quê? – disse o moço sorridente – Moisés não começou a vida num cesto sobre as águas?
O velho achou graça na alusão e esclareceu o projeto. Não muito longe dali, havia grandes árvores junto dos muros da cidade. Alçariam o fugitivo num grande cesto, e depois, com insignificantes movimentos, ele poderia descer do outro lado, em condições de encetar a viagem para Jerusalém, conforme pretendia. O ex-rabino experimentou imensa alegria. Na mesma hora, a dona da casa foi buscar o concurso dos três irmãos de mais confiança. E quando o céu se fez mais sombrio, depois das primeiras horas da meia-noite, um pequeno grupo se reunia junto a muralha, em ponto mais distante do centro da cidade. Saulo beijou as mãos de Ananias, quase com lágrimas. Despediu-se em voz baixa dos amigos, enquanto um lhe entregava volumoso pacote de bolos de cevada. Na copa da árvore frondosa e escura, o mais jovem esperava o sinal, o moço tarsense entrou na sua embarcação improvisada e a evasão se deu no âmbito silencioso da noite.
(...)
Aos primeiros raios de sol, o fugitivo ia longe. Levava consigo os bolos de cevada como única provisão, e o Evangelho presenteado por Gamaliel como lembrança de tanto tempo de solidão e de luta. (...)
Extraído do livro "Paulo e Estêvão" (Capítulo III – Lutas e humilhações), de Francisco Cândido Xavier. Romance ditado por Emmanuel (episódios históricos do cristianismo primitivo). Publicado em 1941. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Mapa do Tesouro

(...) Na segunda noite acomodaram-se em pequena caverna, algo distante do trilho estreito, logo após os derradeiros tons do crepúsculo. Depois de frugalíssima refeição, passaram a comentar animadamente os feitos da igreja de Jerusalém. Noite fechada e ainda suas vozes quebravam o grande silêncio.
Desdobrando os assuntos, passaram a falar das excelências do Evangelho, exaltando a grandeza da missão de Jesus-Cristo.
– Se os homens soubessem... – dizia Barnabé fazendo comparações.
– Todos se reuniriam em torno do Senhor e descansariam – rematava Paulo cheio de convicção.
– Ele é o Príncipe que reinará sobre todos.
– Ninguém trouxe a este mundo riqueza maior.
– Ah! comentava o discípulo de Simão Pedro – o tesouro de que foi mensageiro engrandecerá a Terra para sempre.
E assim prosseguiam, valendo-se de preciosas imagens da vida comum para simbolizar os bens eternos, quando singular movimento lhes despertou atenção. Dois homens armados precipitaram-se sobre ambos, à fraca luz de uma tocha acesa em resinas.
– A bolsa! – gritou um dos malfeitores.
Barnabé empalideceu ligeiramente, mas Paulo estava sereno e impassível.
– Entreguem o que têm ou morrem – exclamou o outro bandido, alçando o punhal.
Olhando fixamente o companheiro, o ex-rabino ordenou:
– Dá-lhes o dinheiro que resta, Deus suprirá nossas necessidades de outro modo.
Barnabé esvaziou a bolsa que trazia entre as dobras da túnica, enquanto os malfeitores recolhiam, ávidos, a pequena quantia.
Reparando nos pergaminhos do Evangelho que os missionários consultavam à luz da tocha improvisada, um dos ladrões interrogou desconfiado e irônico:
– Que documentos são esses? Faláveis de um príncipe opulento... Ouvimos referências a um tesouro... Que significa tudo isso?
Com admirável presença de espírito, Paulo explicou:
– Sim, de fato estes pergaminhos são o roteiro do imenso tesouro que nos trouxe o Cristo Jesus, que há de reinar sobre os príncipes da Terra.
Um dos bandidos, grandemente interessado, examinou o rolo das anotações de Levi.
– Quem encontrar esse tesouro – prosseguia Paulo, resoluto –, nunca mais sentirá necessidades.
Os ladrões guardaram o Evangelho cuidadosamente.
– Agradecei a Deus não vos tirarmos a vida – disse um deles.
E apagando a tocha bruxuleante, desapareceram na escuridão da noite.
Quando se viram a sós, Barnabé não conseguiu dissimular o assombro.
– E agora? – perguntou com voz trêmula.
– A missão continua bem – glosou Paulo cheio de bom ânimo –, não contávamos com a excelente oportunidade de transmitir a Boa Nova aos ladrões.
O discípulo de Pedro, admirando-se de tamanha serenidade, voltou a dizer:
– Mas, levaram-nos, também, os derradeiros pães de cevada, bem como as capas...
– Haverá sempre alguma fruta na estrada – esclarecia Paulo, decidido – e, quanto às coberturas, não tenhamos maior cuidado, pois não nos faltará o musgo das árvores.
E, desejoso de tranquilizar o companheiro, acrescentava:
– De fato, não temos mais dinheiro, mas julgo não será difícil conseguir trabalho com os tapeceiros de Antioquia de Pisídia. Além disso, a região está muito distante dos grandes centros e posso levar certas novidades aos colegas do ofício. Esta circunstância será vantajosa para nós.
Depois de tecerem esperanças novas, dormiram ao relento, sonhando com as alegrias do Reino de Deus.
No dia seguinte, Barnabé continuava preocupado. Interpelado pelo companheiro, confessou compungido:
– Estou resignado com a carência absoluta de recursos materiais, mas não posso esquecer que nos subtrairam também as anotações evangélicas que possuíamos. Como recomeçar nossa tarefa? Se temos de cor grande parte dos ensinamentos, não poderemos conferir todas as expressões...
Paulo, todavia, fez um gesto significativo e, desabotoando a túnica, retirou alguma coisa que guardava junto do coração.
– Enganas-te, Barnabé – disse com um sorriso otimista –, tenho aqui o Evangelho que me recorda a bondade de Gamaliel. Foi um presente de Simão Pedro ao meu velho mentor, que, por sua vez, mo deu pouco antes de morrer.
O missionário de Chipre apertou nas mãos o tesouro do Cristo. O júbilo voltou a iluminar-lhe o coração. Poderiam dispensar todo o conforto do mundo, mas a palavra de Jesus era imprescindível. (...)
Extraído do livro "Paulo e Estêvão" (Capítulo IV – Primeiros labores apostólicos), de Francisco Cândido Xavier. Romance ditado por Emmanuel (episódios históricos do cristianismo primitivo). Publicado em 1941. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Um ouvido para a acusação e outro para a defesa

(...) Irritados com o êxito inexcedível do empreendimento de Paulo de Tarso, que se demorava na cidade já por um ano e seis meses, tendo fundado um verdadeiro e perfeito abrigo para os “filhos do Calvário”, os judeus de Corinto tramaram um movimento terrível de perseguição ao Apóstolo. A sinagoga esvaziava-se. Era necessário extinguir a causa do seu desprestígio social. O ex-rabino de Jerusalém pagaria muito caro a audácia da propaganda do Messias Nazareno em detrimento de Moisés.

Era procônsul da Acaia, com residência em Corinto, um romano generoso e ilustre, que costumava agir sempre de acordo com a justiça, em sua vida pública. Irmão de Sêneca, Júnio Gálio era homem de grande bondade e fina educação. O processo iniciado contra o ex-rabino foi às suas mãos, sem que Paulo tivesse a mínima notícia e era tão grande a bagagem de acusações levantadas pelos israelitas, que o administrador foi compelido a determinar a prisão do Apóstolo para o inquérito inicial. A sinagoga pediu, com particular empenho, que lhe fosse delegada a tarefa de conduzir o acusado ao tribunal. Longe de conhecer o móvel do pedido, o procônsul concedeu a permissão necessária, determinando o comparecimento dos interessados à audiência pública do dia seguinte.

De posse da ordem, os israelitas mais exaltados deliberaram prender Paulo na véspera, num momento em que o fato pudesse escandalizar toda a comunidade.

À noite, justamente quando o ex-rabino comentava o Evangelho, tomado de profundas inspirações, o grupo armado parou à porta, destacando-se alguns judeus mais eminentes que se dirigiram ao interior.

Paulo ouviu a voz de prisão, com extrema serenidade. Outro tanto, porém, não aconteceu com a assembleia. Houve grande tumulto no recinto. Alguns moços mais exaltados apagaram as tochas, mas o Apóstolo valoroso, num apelo solene e comovedor, bradou alto:

– Irmãos, acaso quereis o Cristo sem testemunho?

A pergunta ressoou no ambiente, contendo todos os ânimos. Sempre sereno, o ex-rabino ordenou que acendessem as luzes e, estendendo os pulsos para os judeus admirados, disse com acento inesquecível:

– Estou pronto!...

Um componente do grupo, despeitado com aquela superioridade espiritual, avançou e deu-lhe com os açoites em pleno rosto.

Alguns cristãos protestaram, os portadores da ordem de Gálio revidaram com aspereza, mas o prisioneiro, sem demonstrar a mais leve revolta, clamou em voz mais alta:

– Irmãos, regozijemo-nos em Cristo Jesus. Estejamos tranquilos e jubilosos porque o Senhor nos julgou dignos!...

Grande serenidade estabeleceu-se, então, na assembleia. Várias mulheres soluçavam baixinho. Áquila e a esposa dirigiram ao Apóstolo um inolvidável olhar e a pequena caravana demandou o cárcere, na sombra da noite. Atirado ao fundo de uma enxovia úmida, Paulo foi atado ao tronco do suplício e houve de suportar a flagelação dos trinta e nove açoites. Ele próprio estava surpreendido. Sublime paz banhava-lhe o coração de brandos consolos. Não obstante sentir-se sozinho, entre perseguidores cruéis, experimentava nova confiança no Cristo. Nessas disposições, não lhe doíam as vergastadas impiedosas; debalde os verdugos espicaçavam-lhe o espírito ardente, com insultos e ironias. Na prova rude e dolorosa, compreendeu, alegremente, que havia atingido a região de paz divina, no mundo interior, que Deus concede a seus filhos depois das lutas acerbas e incessantes por eles mantidas na conquista de si mesmos. De outras vezes, o amor pela justiça o conduzira a situações apaixonadas, a desejos mal contidos, a polêmicas ríspidas; mas ali, enfrentando os açoites que lhe caíam nos ombros seminus, abrindo sulcos sangrentos, tinha uma lembrança mais viva do Cristo, a impressão de estar chegando aos seus braços misericordiosos, depois de caminhadas terríveis e ásperas, desde a hora em que havia caído às portas de Damasco, sob uma tempestade de lágrimas e trevas. Submerso em pensamentos sublimes, Paulo de Tarso sentiu o seu primeiro grande êxtase. Não mais ouviu os sarcasmos dos algozes inflexíveis, sentiu que sua alma dilatava-se ao infinito, experimentando sagradas emoções de indefinível ventura. Brando sono lhe anestesiou o coração e, somente pela madrugada, voltou a si do caricioso descanso. O sol visitava-o alegre, através das grades. O valoroso discípulo do Evangelho levantou-se bem disposto, recompôs as vestes e esperou pacientemente.

Só depois do meio-dia, três soldados desceram ao cárcere das disciplinas judaicas, retirando o prisioneiro para conduzi-lo à presença do procônsul.

Paulo compareceu à barra do tribunal, com imensa serenidade. O recinto estava cheio de israelitas exaltados; mas o Apóstolo, notou que a assembleia se compunha, na maioria, de gregos de fisionomia simpática, muitos deles seus conhecidos pessoais dos trabalhos de assistência da igreja.

Júnio Gálio, muito cioso do seu cargo, sentou-se sob o olhar ansioso dos espectadores cheios de interesse.

O procônsul, de conformidade com a praxe, teria de ouvir as partes em litígio, antes de pronunciar qualquer julgamento, apesar das queixas e acusações exaradas em pergaminho.

Pelos judeus falaria um dos maiores da sinagoga, de nome Sóstenes; mas, como não aparecesse o representante da igreja de Corinto para a defesa do Apóstolo, a autoridade reclamou o cumprimento da medida sem perda de tempo. Paulo de Tarso, muito surpreendido, rogava intimamente a Jesus fosse o patrono de sua causa, quando se destacou um homem que se prontificava a depor em nome da Igreja. Era Tito Justo, o romano generoso, que não desprezava o ensejo do testemunho. Verificou-se, então, um fato inesperado. Os gregos da assembleia prorromperam em frenéticos aplausos.

Júnio Gálio determinou que os acusadores iniciassem as declarações públicas necessárias.

Sóstenes entrou a falar com grande aprovação dos judeus presentes. Acusava Paulo de blasfemo, desertor da Lei, feiticeiro. Referiu-se ao seu passado, acrimoniosamente. Contou que os próprios parentes o haviam abandonado. O procônsul ouvia atento, mas não deixou de manter uma atitude curiosa. Com o indicador da direita comprimia um ouvido, sem atender à estupefação geral. O maioral da sinagoga, no entanto, desconcertava-se com aquele gesto. Terminando o libelo apaixonado quanto injusto, Sóstenes interrogou o administrador da Acaia, relativamente à sua atitude, que exigia um esclarecimento, a fim de não ser tomada por desconsideração.

Gálio, porém, muito calmo, respondeu fazendo humorismo:

– Suponho não estar aqui para dar satisfação de meus atos pessoais e sim para atender aos imperativos da justiça. Mas, em obediência ao código da fraternidade humana, declaro que, a meu ver, todo administrador ou juiz em causa alheia deverá reservar um ouvido para a acusação e outro para a defesa.

Enquanto os judeus franziam o sobrecenho extremamente confundidos, os coríntios riam gostamente. O próprio Paulo achou muita graça na confissão do procônsul, sem poder disfarçar o sorriso bom que lhe iluminou repentinamente a fisionomia.

Passado o incidente humorístico, Tito Justo aproximou-se e falou sucintamente da missão do Apóstolo. Suas palavras obedeciam a largo sopro de inspiração e beleza espiritual. Júnio Gálio, ouvindo a história do convertido de Damasco, dos lábios de um compatrício, mostrou-se muito impressionado e comovido. De quando em vez, os gregos prorrompiam em exclamações de aplauso e contentamento. Os israelitas compreenderam que perdiam terreno de momento a momento.

Ao fim dos trabalhos, o chefe político da Acaia tomou a palavra para concluir que não via crime algum no discípulo do Evangelho; que os judeus deviam, antes de qualquer acusação injusta, examinar a obra generosa da igreja de Corinto, porquanto, na sua opinião, não havia agravo dos princípios israelitas; que a só controvérsia de palavras não justificava violências, concluindo pela frivolidade das acusações e declarando não desejar a função de juiz em assunto daquela natureza.

Cada conclusão formulada era ruidosamente aplaudida pelos coríntios.

Quando Júnio Gálio declarou que Paulo devia considerar-se em plena liberdade, os aplausos atingiram ao delírio. A autoridade recomendou que a retirada se fizesse em ordem; mas os gregos aguardaram a descida de Sóstenes, e quando surgiu a figura solene do “mestre” atacaram sem piedade. Estabelecido enorme tumulto na escada longa que separava o Tribunal da via pública, Tito Justo acercou-se aflito do procônsul e pediu que interviesse. Gálio, entretanto, continuando a preparar-se para regressar a casa, dirigiu a Paulo um olhar de simpatia e acrescentou, calmamente:

– Não nos preocupemos. Os judeus estão muito habituados a esses tumultos. Se eu, como juiz, resguardei um ouvido, parece-me que Sóstenes deveria resguardar o corpo inteiro, na qualidade de acusador. (...)

Extraído do livro "Paulo e Estêvão" (Capítulo VII – As Epístolas), de Francisco Cândido Xavier. Romance ditado por Emmanuel (episódios históricos do cristianismo primitivo). Publicado em 1941.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

É hoje o Fim do Mundo!

Confira a Flash Expo Cartoon sobre o Fim do Mundo. Exposição organizada pelo colega JAL.